Grafite espalha arte por Joinville

Grafite espalha arte por Joinville

Por Heloísa Krzeminski

Foram os festivais da cultura hip hop que trouxeram o grafite para Joinville. Conforme a antropóloga e professora Maria Elisa Maximo, o hip hop não é apenas um estilo musical, mas uma cultura urbana que abriga o grafite como um de seus elementos.

Muitos grafiteiros responsáveis por alguns dos desenhos em muros e paredes de Joinville são artistas urbanos com obras expostas em galerias e até em outros países. Geralmente, contudo, a história de muitos deles começa na “ilegalidade”. O artista José Malinoski, o “Fox”, sempre gostou de arte urbana e começou a grafitar na adolescência. De início, utilizava pincel e rolinho para gravar em muros de escolas o que desejava dizer ao mundo. Posteriormente fez trabalhos gratuitos em diversos eventos e, a partir deles, foi aprimorando sua técnica.

Enfrentar os preconceitos – explícitos e camuflados –  costuma ser um desafio na vida dos grafiteiros. “Estava pintando a parede de uma loja para um trabalho comercial para o qual eu havia sido contratado e então chegou um policial armado. Ele me mandou colocar as mãos na parede, achou que eu estava fazendo alguma parada ilegal”, conta Fox. Depois do esclarecimento, o policial pediu desculpas e se retirou. “O preconceito existe, mas é mais comum vir da galera que não tem conhecimento nem mente aberta para a arte”, avalia o artista.

Estabelecimentos comerciais e proprietários de imóveis contratam artistas urbanos

O preconceito também está presente na famosa pergunta “você trabalha ou só grafita?” Fox já perdeu a conta de quantas vezes ouviu esse questionamento. Segundo ele, isso ocorre porque muitas pessoas encaram a arte como um hobby e não uma profissão.

A publicitária Mariê Balbinot grafita desde 2010, ano em que fundou o Coletivo Chá, iniciativa que utiliza o meio urbano como superfície de exposição unindo projetos artísticos independentes. Ela faz trabalhos comerciais e também por passatempo. “Em 2010, ser artista urbana em Joinville apresentava muitos desafios, dentre eles, o preconceito do conservadorismo, característico da cidade”, afirma.

Para Mariê, o grafite é mais do que um meio de sustento, representa sua vida, ou melhor, sua missão de vida. “É a minha principal ferramenta para existir e resistir no espaço físico”, define. Fox tem opinião parecida: o grafite faz parte de sua essência. “É um sonho que eu estou vivendo e ele se realiza um pouquinho a cada dia”, explica.

Arte urbana conquista comerciantes

Graças à popularidade que o grafite tem recebido nos últimos anos, muitas lojas e estabelecimentos comerciais optam por decorar seus ambientes com desenhos autorais de artistas urbanos. Um exemplo disso é o Tucanos Açaí. A franquia contratou Fox para trabalhar em uma das paredes da matriz. Conforme Deila Pepe, sócia-proprietária, o principal objetivo ao contratar grafiteiros é valorizar o trabalho dos artistas. “Sempre achamos um trabalho muito bonito”, disse. Com o reposicionamento da marca, toda a decoração apoia artistas regionais, contratando-os para decorar os ambientes, a fim de trazer mais brasilidade para os estabelecimentos.

De acordo com Deila, os clientes gostam muito do trabalho realizado por Fox. “Sempre perguntam quem fez, pedem o contato e tiram muitas fotos”, conta. O grafite da lanchonete dá mais visibilidade para o estabelecimento e para o artista, que já realizou trabalhos para outros comerciantes, inclusive em outras cidades.

Obra de Fox Malinoski /Fotos: acervo pessoal

Modo de expressão

O grafitismo surgiu como uma forma de crítica social. É uma intervenção das camadas mais pobres no cenário urbano. De acordo com Maria Elisa Maxio, o grafite tornou-se popular na década de 1970, nas grandes cidades do Brasil e do mundo. Esse tipo de arte é caracterizado por deixar marcas na cidade e construir territorialidade entre grupos e tribos urbanas.

Muitas vezes, segundo Maria Elisa, a história do grafite se confunde com a da pichação. Muitos teóricos defendem as diferenças entre ambas, embora o surgimento do grafite e da pichação apresentem origens semelhantes, como a prática de marcar na cidade algumas territorialidades e identidades. A principal diferença entre as duas manifestações é que o grafite baseia-se em desenhos e figuras, trazendo elementos elaborados com o objetivo de expressar os sentimentos do artista. A pichação limita-se a escritas ou rabiscos não elaborados. O grafite ganhou status artístico enquanto a pichação ainda é considerada vandalismo pelas autoridades.

O grafite apropria-se de prédios públicos ou construções de grandes corporações e é uma forma de dizer que a cultura popular resiste. É uma forma das camadas populares conquistarem voz e expressarem sua mensagem de forma artística para o restante da sociedade.

 

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2 Comentários
    • Suelen
    • On: 11 de setembro de 2019

    Bom dia!
    Vcs conhecem algum projeto gratuito em SC, para dar mais cor aos municípios?
    Conheço uma escola com um muro enorme em extensão que está doando o espaço para algum projeto no Estado.

    Responder
      • Destiny Goulart
      • On: 11 de setembro de 2019

      Boa tarde!

      Infelizmente, não conhecemos. Mas você pode entrar em contato com a Secretaria de Cultura e Turismo de Joinville através do número (47) 3433-2190 e ver se eles podem te ajudar!!

      Responder
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