Deutsche Schule passa por nova restauração

Deutsche Schule passa por nova restauração

Por Thiago Rodrigues e Vinícius Sprotte

Um marco da educação catarinense está em obras. A Deutsche Schule (Escola Alemã) passa por restauração. O prédio, construído há mais de 140 anos, é patrimônio histórico estadual. São 1.351,56 m² de área, distribuídos em 3 pavimentos. A conclusão está prevista para janeiro de 2021.

Depois do restauro, o Centro Cultural Deutsche Schule, que integra a unidade centro da Faculdade Ielusc, volta a abrigar a Agência Experimental de Propaganda (AEP), a web rádio primeira Hora, sala de reuniões e também deve receber novas utilizações. “Contratamos uma empresa de arquitetura para nos auxiliar no aspecto da ocupação.  Pensamos em manter os espaços já constituídos e criar outros”, explica o diretor da Faculdade Ielusc, Paulo Aires.

Conforme informações do engenheiro Rafael Silveira Goulart,  Gerente de Patrimônio do Bom Jesus Ielusc, os trabalhos incluem restauração externa e interna, conservando as características originais.

As principais  intervenções  são o restauro de fachadas e reforço estrutural parcial.  De acordo com o engenheiro, havia rachaduras inclinadas de 45 graus na fachada da parede que confronta com a rua Princesa Isabel. “Essas patologias estão ligadas ao baixo nível do lençol freático da região, juntamente com o tráfego atual da rua Princesa Isabel”, observa.

Por conta da trepidação dos veículos, a fundação vinha trabalhando contra os recalques, aspecto favorecido pelas adequações de infraestrutura realizadas na calçada, como passagem de tubulações pluviais, gás e esgoto no calçamento frontal.

Com base nas normas e convenções internacionais de conservação, os arquitetos Jonathan Carvalho e Simone Harger projetaram as intervenções necessárias para a recuperação. 

Fachadas defronte à rua Princesa Isabel recebem atenção especial/ Foto: MTUR

Desafios de um prédio histórico

 Toda restauração, segundo Goulart, é um desafio, pois são necessários  cuidados especiais com a estrutura, além da parte de projetos, documentação e aprovações dos órgãos competentes. Como a Deutsche Schule é patrimônio histórico estadual, o projeto de restauração precisou ser aprovado pela Fundação Catarinense de Cultura

 “A mão de obra deve ser qualificada, pois grande parte do processo é manual para não interferir nos demais pontos da estrutura”, diz Goulart.  A maioria dos materiais empregados são minerais, priorizando a reutilização de parte da estrutura.

A  pandemia de Covid-19 também trouxe impactos à obra. “Faltaram muitos materiais no mercado. Recordo que finalizamos a concretagem da fundação com o último lote de cimento da empresa fornecedora e sem projeção de chegada nos concorrentes”, detalha.

Memória preservada

Em 2009, a Deutsche Schule também passou por restauração. “O projeto surgiu com a intenção de guardar a memória da escola e a própria memória da cidade”, afirma Maria Lorenzetti Correa, arquiteta responsável pelo projeto na época. 

Para a restauração anterior, houve todo um processo de levantamento histórico e técnico. “Era necessário  saber o que era original e o que não era, o que estava causando problema ao edifício que poderia ser restaurado e outras intervenções que poderiam ser feitas para potencializar o uso do prédio”, lembra Maria.

Centro Cultural Deutsche Schule abriga lembranças do passado/ Foto: Thiago Rodrigues

Um símbolo de amor à educação

A Deutsche Schule foi fundada em 1866 e a construção do prédio atual levou 10 anos para ser concluída, em 1876. Construída com  propósito pedagógico, a instituição faz parte da história de um grande projeto educacional do século XIX. Com a chegada de imigrantes à Província de Santa Catarina no período imperial, a situação da educação era precária e a preocupação do Estado brasileiro  com a situação educacional era inexistente. Nadando contra essa correnteza, as comunidades alemãs  trataram de se organizar para prover educação às crianças.

As instituições religiosas alemãs na Província eram tão envolvidas com a alfabetização de suas comunidades que chegavam até a negar participação de indivíduos que não se dedicassem suficientemente aos estudos, o que – para alguns pais – nem sempre era algo bem recebido, pois isso interferia no trabalho rural.

No começo, por falta de pessoas qualificadas, uma medida comum, mas frequentemente ineficiente, era  “importar” professores alemães para ensinar. A tendência era de que esses mestres voltassem para seu país de origem uma vez que a vida no interior catarinense era demasiadamente difícil.

August Heinrich Klüver atuou  por mais de 50 anos na Colônia Dona Francisca, como relatado em “A Escola Teuto-Catarinense a o Processo de Modernização  em Santa Catarina – A  Ação da Igreja Luterana Através das Escolas”, de João Klug. Professor formado, Klüver imigrou em 1878 e não tratou apenas de lidar com o ensino, mas  com tudo com o que a comunidade necessitava. Ele trabalhava como marceneiro, pedreiro, cozinheiro e jardineiro. A necessidade de realizar trabalhos mais pesados como esses era o que tornava a região menos atrativa aos professores. 

Prédio da “Escola Alemã” existe há 144 anos/ Foto: Arquivo 

Anos de silêncio 

Na década de 30, com  a progressão da Segunda Guerra Mundial e o antagonismo entre o Brasil e Alemanha, a coesão das comunidades alemãs passou a ser encarada como algo preocupante pelo governo Vargas. O governo brasileiro passou a  hostilizar as comunidades alemãs, proibindo não só o ensino da língua alemã, mas também o uso do idioma. Como consequência, as instituições de ensino foram diretamente afetadas pela medida. 

Em 1938, com a Campanha de Nacionalização, a Escola Alemã foi fechada. O livro “A Muitas Vozes” reproduz  trecho de uma carta de Fritz Groegel, na época aluno da Deutsche Schule, narrando o fechamento da escola:

Numa manhã, homens para nós estranhos, percorreram as salas de aula, mandaram que guardássemos todo o material e permitiram somente uma folha de papel em branco e lápis em cima da carteira. Mandaram, então, que escrevêssemos o hino nacional, dentro de um prazo bastante curto. Decorrido o prazo, recolheram as  folhas e foram para a sala seguinte. Dias depois, um jornal de Florianópolis estampava os trabalhos, acompanhados dos comentários mais ácidos possíveis. Pouco tempo depois, o diretor, Sr. Büchle, comunicou que a escola  havia sido fechada e que seríamos transferidos para  outros colégios.

A partir de 1939, a professora Anna Maria Harger – que havia fundado em 1926 a  Escola Remington Official, que depois evolui para Instituto Bom Jesus – passa a utilizar o espaço da Deutsche Schule e a administrar o patrimônio. Em 1962 a escola reabre após fusão com o Instituto Bom Jesus, depois Colégio Bom Jesus. Entre  1963/64, o colégio é transferido para a Comunidade Evangélica Luterana de Joinville.

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